Caríssimos,
Eis que segue o primeiro texto, onde tento discutir alguns pensamentos acerca do papel da fonte escrita no trabalho do Historiador, um tema que, penso eu ocupa com algum sucesso o cargo de texto-inaugural. Torço para que gostem, mas espero que discordem de cada linha abaixo. E, claro, que promovam o melhor das Ciências Humanas: o debate (mesmo que escrito)!
Eduardo Polidori
Fonte Escrita: Empiria ou Discurso?
“A história se faz através dos documentos”. Essa é a premissa máxima do pensamento oitocentista sobre o trato da escrita da História. Encarada como ciência num tempo onde reinou o positivismo como metodologia ideológico-científica, os historiadores recorreram à documentação escrita como fonte máxima e incontestável para a verificação exata, empírica, do que teria sido uma sequencia inalterável de fatos, absolutamente passíveis de reconstrução.
Criou-se um hábito logocêntrico na produção da Historiografia, independentemente da peridiocidade ou espacialidade tratadas. Os historiadores do século XIX diriam ser Tucídides seu grande modelo magistral, já que o antigo helênico produziu uma obra estritamente factual e respaldada no que era possível, como prova maior, o testemunho ocular. O historiador da Guerra do Peloponeso, depois de cerca de 2000 anos de sua produção, tornava-se referência na recém criada academia dos historiadores europeus.
A documentação escrita passa a ser sinônimo da empiria. Ao historiador, diz o manual de Langlois e Seignobos, dois dos grandes teóricos da história científica, cabe apenas a leitura e a extração dos fatos da documentação, sem qualquer necessidade ou ‘direito’ de reflexão, análise ou interpretação sobre o que está sendo lido no documento estudado.
Da mesma forma, a escrita passou a ditar, no sentido estrito da palavra, a periodização e a limitar o conhecimento de uma época específica ao conhecimento de fontes escritas produzidas nela. Um caso bastante conhecido é a própria definição do que seria a “História” em separação da “Pré-História”. O elemento de distinção é justamente o surgimento e utilização da escrita, datado em seu início por volta de 4000 a.C. Outro exemplo, igualmente pertinente, é a denominação dada pelos historiadores ao período que serve de intervalo entre a “Grécia dos Palácios” e as obras homéricas: Idade Obscura. O obscurantismo de tal período refere-se somente a ausência de fontes escritas, não de completa ignorância dos estudiosos. Estes exemplos, embora propositalmente pouco explorados, revelam o caráter logocêntrico do ‘escrever a História’.
A História do século XIX estava, então, completamente vinculada às fontes escritas, de forma que estas seriam as únicas atestadoras possíveis da tão procurada veracidade histórica. Ao mesmo tempo, porém, eis que surge na Europa outra vertente exploratória do passado dos povos, igualmente subserviente às ideologias políticas da época: a arqueologia. Sua função foi buscar na cultura material um respaldo para a afirmação da identidade étnica. Surge, então, a etnogênese dos povos, uma teoria que buscava as raízes dos povos modernos em povos longínquos temporalmente, mas espacialmente semelhantes.
Na atualidade, porém, diversas pautas tradicionais da História, como a Dark Age grega ou a escrita cuneiforme como limiar da Pré-História, têm sido fortemente contestadas em virtude da recém-utilização da arqueologia em aliança com a história, ou, noutras palavras, em aliança com as fontes escritas, outrora empiricamente hegemônicas no trato documental. Arqueólogos têm descoberto inúmeras nuances de análise através da cultura material de períodos cuja informação sobre era absolutamente escassa.
Mas como pensar a fonte escrita? Como conciliar o que podem fornecer para o pesquisador, seja ele arqueólogo, classicista, antropólogo ou historiador? É isso que pretendo discutir no presente ensaio.
A fonte escrita é, sobretudo, um discurso. Por ser um discurso, é plurifacetal nas interpretações que lhe cabem. Ao ser produzido, o texto visa, obviamente, um alvo, seja ele individual ou coletivo. É claro que a carga de conteúdo varia conforme o público a que ele se destina. Uma carta pessoal não contém a mesma construção textual de uma declaração diplomática. Ambas, porém, têm seu valor, na medida em que respondem a perguntas diferentes do historiador. Mas o texto, sobretudo, revela nas entrelinhas o juízo de valor que o autor fez a respeito do objeto que trata. É, antes de tudo, uma leitura que traduz uma visão particular sobre o tema abordado. No século XIX, pensou-se tal leitura contemporânea ao fato como reprodução metódica da verdade.
Por isso o encaixe perfeito entre a visão da história exata e do método tucidideano: o melhor relato é aquele respaldado na testemunha ocular, ou seja, quem conta melhor é quem, efetivamente, presenciou os acontecimentos. É também por este motivo que a História positivista negou a Heródoto o título de “primeiro historiador”, já que ele se valeu, na construção de sua narrativa, de relatos de outra natureza.
Ao priorizar o relato ocular, ou, em outras palavras, ao adotar os escritos como verdade absoluta na construção do que seria, de fato, a História, escapou aos historiadores durante muito tempo a percepção de que, tais como textos jornalísticos, propagandísticos ou mesmo diários pessoais da atualidade, os textos antigos (leia-se textos não-contemporâneos ao pesquisador) também carregam sentidos conotativos, abstratos e absolutamente alheios a percepção da funcionalidade das coisas daquele que o lê após vários anos após sua confecção.
Não é a toa que a historiografia contemporânea vem carregada de reaberturas de discussões, de reinterpretações de textos e, consequentemente, da realocação de questões ou reinvenção de hipóteses. Cada vez menos exatos, os textos vem sendo interrogados de forma menos sistemática e mais relativizada, de forma que se possam identificar, entre outras coisas, os tais juízos de valor já referidos. Na medida em que toda fonte escrita é uma leitura do que é presenciado, ela passa automaticamente para a qualidade de fonte secundária, ou seja, passa a ser entendida como uma interpretação já carregada de juízo de valor. Desaparece, em última estância, a qualidade maior da fonte primária: o oferecimento de informações concretas, imbuídas de confiabilidade, impassíveis de qualquer escárnio metodológico. Isso simplesmente deixa de existir se adotarmos como pressuposto que toda fonte escrita é, efetivamente, uma fonte secundária, ou seja, uma releitura, um discurso.
Se adotarmos como verdade ser a qualidade máxima da fonte escrita o caráter discursivo, é natural que pensemos, paralelamente, serem as conclusões retiradas de sua leitura absolutamente respaldadas na interpretação pessoal do analista. Isso, de certa forma, produz uma colisão junto à ideia tradicional sobre o trato da História, que seria a busca, nestes documentos, por informações concretas sobre o passado.
A fonte escrita, então, deve se privar de revelar alguma verdade histórica sobre o passado. Aliás, faz-se necessário um acréscimo: entendo por verdade histórica todo aquele fato dito imutável, indiscutível. Ao contrário, talvez os escritos documentais produzam muito mais inverdades do que propriamente fatos mergulhados em concretude. Como discursos, no entanto, estão repletos de, como dito anteriormente, juízos de valor. Entender o que está sendo dito não é simplesmente extrair as informações ali contidas. É, antes de tudo, entender como o autor produziu aquele texto. Metáforas, conotações de palavras, exemplos, descrições, entre outros, fazem parte do que verdadeiramente passou a interessar e a contribuir para o ofício dos intelectuais por isso ocupados.
Afinal, documentos de caráter discursivo não podem ser encarados como outra coisa, senão como discurso. Coube, então, o estudo de como tais discursos eram feitos. Isso inclui, obviamente, o estudo do autor em si: sua posição social, sua filiação religiosa/intelectual, entre outros. Ademais, o destinatário daquele discurso é da mais profunda importância, justamente por revelar muito de como o discurso em si é construído. Os propósitos daquela produção, em igual estância, fazem-se relevantes. Se traduzíssemos tais propósitos numa indagação, ela seria simplesmente sobre qual seria o objetivo daquele discurso. Os juízos de valor identificáveis nele podem revelar muito sobre a sociedade na qual viveu o autor.
Há de se considerar também que as interpretações feitas a respeito dos documentos são tão incrustadas de caráter discursivo como os próprios documentos. Sendo assim, o profissional, como obra-prima das influências de seu tempo, deverá embutir ideias e preceitos quase organicamente alojados em sua formação intelectual e fazê-las reproduzir em sua própria interpretação. Infere-se, dessa forma, que cada obra guarde uma ‘marca metodológica’ do tempo em que ela foi produzida. Logo, na medida em que, por exemplo, a historiografia sobre um tema aleatório pode revelar o pensamento do historiador sobre o objeto de estudo, pode também trazer a luz elementos teóricos comuns à época daquele autor. Em suma, historiografia também faz parte do estudo da História, pois tanto o documento quanto o que se escreveu sobre ele gozam de juízos de valor específicos, já que são produtos de seu tempo.
Os documentos escritos revelam, sim, alguns parâmetros úteis para os pesquisadores no que respeita a época em que viveram seus autores. Não é no passado, todavia, que devemos concentrar a percepção do documento, mas sim no presente. Os discursos escritos herdados por nós de passados distantes jamais poderão ser recuperados em sua essência, pois o tempo modifica tanto as palavras quanto o uso daquelas que se mantêm semelhantes. De um modo geral, o tempo modifica a língua. Se não inalcançáveis, creio serem as fontes escritas distantes das interpretações que lhes foram cabidas. Novamente, tais interpretações são da mais absoluta valia para percebermos que as leituras, sejam de cartas pessoais ou clássicos latinos, de nada têm de antigas, pois refletem o nosso tempo. São, desse modo, absolutamente contemporâneas.